Ateliê Aberto: tempo, viver e contar


Neste domingo, durante o Circular, ateliê aberto para visitação na Fotoativa

 

Viver o enquanto. É o que têm feito os artistas Marcone Moreira e
José Viana, imersos cada um em seu ateliê na Fotoativa


Ao subir as escadas do casarão, não há mais segundo andar. A vibração é outra, ultrapassa paredes, teto, chão. As experiências vividas ali nos ateliês montados pelos artistas Marcone Moreira e José Viana abstraem o espaço físico, vibrando quebras, talhos, cozimentos, suspensões, tingimentos em um exercício tátil do tempo. As vivências, que acontecem paralelas, em salas uma ao lado da outra, reverberam no exercício diário da criação, e foram contempladas com a bolsa de Pesquisa e Experimentação da Fundação Cultural do Pará.

Entre cavas e cicatrizes de artefatos do mundo do trabalho amazônico e nordestino, Marcone percorre heranças dos outros para executar o projeto Exaustos, entendendo as significações da memória em uma instalação que constrói durante o ateliê.  Na sala ao lado, raízes, sementes, folhagens, fervuras de Delírio, palhaço caminhante incorporado por José Viana no projeto Exílio do Tempo, uma travessia sensorial entre rio e mar e as energias sagradas da terra. O cotidiano de criação dos artistas resultará em exposições ainda no mês de agosto.

 

Ateliê de Marcone Moreira. Foto: Tayná Cardel.

 

Exaustos integra matéria e memória. A partir de artefatos usados por trabalhadoras e trabalhadores para quebrar coco de babaçu e ouriço de castanha, Marcone Moreira impregna-se das cicatrizes do labor e fica com o que resta das experiências alheias: a exaustão da matéria e a vibração da memória.

Atravessando seus lugares de afeto, nordeste-amazônia descamam-se no cotidiano do ateliê experienciado pelo artista e questionam como conviver com as significações latentes desses materiais.  O que fica, para além dos porretes ou cepos e suas cavas, do descarte e seus resíduos, é a camada atemporal de história e necessidade de sobrevivência. “O ponto de partida é a exaustão. Mais do que me apropriar do resíduo do trabalho, meu interesse está no indivíduo”, declara Marcone impregnado das repetições que os objetos ao redor lhe causam.

Enquanto vivencia o acúmulo e relaciona-se com ele, o ateliê pulsa em múltiplas linguagens. Desenha os objetos, fotografa e filma, propõem volumes e composição de materiais e cores e ainda traz consigo a sabedoria de um mestre carpinteiro, seu Nazaré, que o acompanha e contribui na montagem de esculturas. “A intenção é me permitir fazer um trabalho tão repetitivo e exaustivo como o dessas pessoas”, diz Marcone, e permanece ali, todos os dias, reverberando a obra inacabada.

 

Sementes de Rio Mar. Ateliê de José Viana. Foto: Tayná Cardel.

 

Exílio do Tempo está ao lado, e em outro lugar. Na imensidão criada por José Viana. Um encontro consigo, quando percebe que abriga dentro de si Delírio, personagem nascente, coletor de sementes de uma ilha que reinventa o tempo no encontro das águas de rio e águas de mar. Rio Mar localiza-se do lado de lá de um continente extremamente veloz. O imaginário do artista materializado nas caminhadas delirantes, em conflito com temporalidades das águas doce de ancestralidade amazônica e das águas oceânicas que trazem a modernidade.

“Encontro de água e chão pelos caminhos de um encantado que busca um certo exílio, mas está recluso nesse outro tempo. Talvez memórias e conexões minhas. É como se eu me sentisse feito dessas duas águas. Eu tentando não ser eu, mas sendo somente eu”, José, enquanto delira, habita as margens, convive com raízes, folhagens, sementes e descobre em sua vivência em ateliê formas visuais, sonoras e táteis que surgem.

O artista segue em seus atos poéticos a experiência do nunca. E desloca desejos e matérias em busca de outras energias. “Quero um outro tempo das coisas, por isso me desloquei para um ilha que está localizada como vontade, e não em um lugar concreto. Experimento coletar não só materiais, mas sensorialidades, ouvindo relatos, gravando áudios e fazendo coisas que nunca fiz. Nunca pintei nem desenhei”, relata José que tem criado objetos, desenhos e pinturas a partir das cores, cascas e amêndoas coletadas.

ou: “um trabalho que encontra o tátil, primeiro pegando no mundo, como uma criança.”

 

Serviço:
Neste domingo, durante o Circular, os ateliês estarão abertos para compartilhar experiências.
Ateliê Exaustos: a partir de 10h.
Ateliê Exílio do Tempo: a partir de 12h.
Local: Associação Fotoativa

 

Sobre Marcone Moreira
Nasceu em 1982, em Pio XII (MA) e viveu a adolescência em Marabá, sudeste do Pará, onde começa a perceber a paisagem e as relações entre rio e cidade, já que recebia influência dos rios Tocantins e Itacaiúnas e das ocupações provocadas por projetos na região. Iniciou suas experimentações artísticas no final dos anos 90. A partir de então, vem participando de diversas exposições pelo país e no exterior. Sua obra abrange várias linguagens, como a produção de pinturas, esculturas, vídeos, objetos, fotografias e instalações. Seu trabalho está relacionado à memória de materiais gastos e impregnados de significados culturalmente construídos, desenvolvendo uma metodologia de trabalho em que interessa a apropriação, o deslocamento e a troca simbólica de materiais. Este ano concorre ao Prêmio Pipa Online com a obra Linhas de Força.

Sobre José Viana
Nasceu em 1988, em Belém (PA). Graduado em Comunicação Social pela FAP – Faculdade Estácio Pará, estudou artes visuais no IUNA – Instituto Nacional del Arte, Buenos Aires, Argentina. Artista e professor do curso de Cinema da UFPA. Atualmente desenvolve seu mestrado em Artes Visuais no ICA/UFPA, em uma investigação que permeia as noções de tempo, paisagem, performance e ficção. Na área da comunicação, trabalha como editor, produtor de textos e designer gráfico. Desde 2014 coordena o Núcleo de Comunicação e Difusão da Associação Fotoativa e é Colaborador em Comunicação da ABRA – Rede Brasileira de Arteducadores desde 2010.

 

Texto: Raphíssima, colaboradora da Fotoativa.

 

 


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