Texto elaborado por Brenda Taketa, a partir da apresentação de Wagner Okasaki no último encontro do Laboratório de Projetos Fotográficos, dia 07 de novembro de 2014.

Foto: Wagner Okasaki

Se ainda não o fizeram, alguém deveria escrever um pequeno tratado sobre os subversivos contemporâneos, reservando todo um capítulo a quem descobriu um motivo para não gerir a vida como uma empresa, com resultados imediatos a serem alcançados por um excessivo controle sobre o tempo e outras variáveis, como renda, trabalho e lazer.

Nesse trabalho, no qual os personagens rejeitariam o tempo de uma sociedade industrial/de consumo e os espetáculos cederiam lugar às decisões pessoais que mudam todo o curso de uma história, o fotógrafo Wagner Okasaki seria uma boa fonte de relatos, com quem todo mundo que se inquieta com o tema (ou mesmo quem nunca pensou seriamente nele) deveria conversar ao menos uma vez.

Ele apresentou, durante a última reunião do Laboratório de Projetos Fotográficos da Fotoativa, dia 07 de novembro, o trabalho realizado para o livro “Querido Diário Peregrino”, editado de forma independente e no qual teve fotografias associadas aos poemas da pernambucana Bernadete Bruto.

A conversa foi alimentada pela cumplicidade de quem confidencia memórias aos amigos – com expressões, gestos, detalhes e parênteses que levam os ouvintes a também experimentarem um pouco das vivências partilhadas.

Um caminho que se segue próximo

Pelos caminhos vou, como o burrinho de São Fernando, um pouquinho a pé e outro pouquinho andando. Às vezes me reconheço nos demais. Me reconheço nos que ficarão, nos amigos abrigos, loucos lindos de justiça e bichos voadores da beleza e demais vadios e mal cuidados que andam por aí e que por aí continuarão, como continuarão as estrelas da noite e as ondas do mar. Então, quando me reconheço neles, eu sou o ar aprendendo a saber-me continuado no vento. Acho que foi Vallejo, que disse que às vezes o vento muda o ar. Quando eu já não estiver, o vento estará, continuará estando. (O ar e o vento, Eduardo Galeano, in O Livro dos Abraços)

Foto: Wagner OkasakiFoi em 2009, no Caminho de Compostela após a partida de Astorga, segundo o relato, que Wagner conheceu Bernadete, quando ambos encontravam-se ainda sob o luto que seguiu o fim de suas respectivas relações conjugais. Faziam parte do mesmo grupo, mas, aparentemente, sem nada em comum, levaram algum tempo até trocar, durante o trajeto, as impressões que a peregrinação encarnava em cada um – e sequer intuíam que comungassem aquela dor ainda atravessada da separação.

Ao final dos minutos de caminhada conjunta – depois da conversa, cada um seguiria ao ritmo dos próprios passos –, ele a fotografou avançar sem imaginar que, anos depois, aquele instante se tornaria a capa da publicação que ambos assinariam em conjunto.

Com o término da viagem, eles voltariam a se falar por um grupo no facebook e, da interação virtual, veio o convite para compartilhar imagens no terceiro livro de poesias assinado por ela.

Os dois anos que se seguiram à decisão de publicarem juntos foram de um significativo diálogo e negociação de sentidos. Ela lhe encomendava imagens a partir dos poemas selecionados e ele respondia com um grupo de fotografias possíveis, enquanto ambos escreviam sobre a alternância com que peso e leveza (dos acontecimentos e decisões) transformam o cotidiano.

Hora de brincar, Wagner Okasaki

E foi nesse processo de entrega ao trabalho (e também à amizade e à vida), assim como do desprendimento de ambos em aceitar o outro, que ele chegou às 100 imagens combinadas com o mesmo número de poemas dela.

Como fotógrafo, o exercício de transpor a imagem de um poema a uma fotografia se deu tanto na busca dos arquivos pessoais quanto na imaginação ou produção de locações e contextos no qual pudesse registrar novas cenas.

Como poeta e mulher, ela permitiu-se expressar por meio de diferentes linguagens como a literatura e a dança, casou um filho e continuou a buscar no dia a dia formas sutis de realização pessoal.

Ele, entre o trabalho formal numa organização pública e o voluntário numa associação não-governamental, entre a prática da fotografia e a da guitarra, manteve a decisão de reelaborar as experiências por meio de terapia, recusando-se a negar a dor e as incertezas de ser humano.

Também refez duas vezes a peregrinação até a Catedral de Santiago. Pela importância que o caminho tomou desde a primeira viagem, ao partir em 2012 de Saint-Jean Pied de Port, situado do lado francês dos Pireneus, pediu a namorada Viviana em casamento depois de percorrerem juntos cerca de 780 quilômetros em 28 dias. Dois anos depois, já casados, retornaram para seguir uma parte da rota portuguesa, dessa vez saindo do Porto.

de Wagner Okasaki

Quisera eu empregar no texto todo o encantamento do que foi narrado pelo Wagner naquela noite. Na impossibilidade, copio aqui o trecho do poema com o qual imediatamente relacionei as imagens da narrativa sobre os caminhos de até a Catedral de Santiago:

Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre el mar.

Nunca persequí la gloria,
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles,
ingrávidos y gentiles,
como pompas de jabón.

Me gusta verlos pintarse
de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
súbitamente y quebrarse…

Nunca perseguí la gloria.

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.

Al andar se hace camino
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

Caminante no hay camino
sino estelas en la mar…

Hace algún tiempo en ese lugar
donde hoy los bosques se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar
“Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…”

Golpe a golpe, verso a verso…

Murió el poeta lejos del hogar.
Le cubre el polvo de un país vecino.
Al alejarse le vieron llorar.
“Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…”

Golpe a golpe, verso a verso…

Cuando el jilguero no puede cantar.
Cuando el poeta es un peregrino,
cuando de nada nos sirve rezar.
“Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…”

Golpe a golpe, verso a verso”.

(Antonio Machado, Caminante no hay camino)

Alforria (1 de 3), de Wagner Okasaki.

Relato escrito por Brenda Taketa

Fotos de Wagner Okasaki

Exemplares do livro “Querido Diário Peregrino” podem ser adquiridos com Wagner Okasaki sob o valor de R$ 35. Contato: wagner_okasaki@yahoo.com.br

Wagner Okasaki apresenta trabalho no Laboratório de Projetos Fotográficos de novembro 2014

Wagner Okasaki apresenta trabalho no Laboratório de Projetos Fotográficos de novembro 2014

O Laboratório de Projetos Fotográficos segue como um espaço aberto e conjunto de aprendizado, reflexão crítica sobre a relação entre história da fotografia e imagem/expressões contemporâneas, assim como de afetos e diálogo entre amigos.


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