Como parte da programação aberta do projeto Fotoativa em Residência: dois de cá, dois de lá, o artista residente Randolpho Lamonier conduziu a vivência Trocas de Paisagens. Foram três dias de encontro com trocas afetivas de histórias, memórias e reflexões, entre o artista mineiro e os participantes locais. As atividades aconteceram no Casarão da Fotoativa, incluindo uma deriva fotográfica até o Porto do Sal. Os fotoativistas Allan Maués e Irene Almeida compartilham seus relatos, em forma de texto e de fotografia. Confira!

Fotografias: Allan Maués, Caroline Maciel e Irene Almeida

Estar à deriva

relato por Allan Maués

Estar à deriva inclui fluir por entre escombros, fragmentos. Derivar pelas ruas da cidade implica a possibilidade de enxergar tais fragmentos em uso ou em suposto abandono. Desde o lixo encostado nas esquinas às ações das pessoas com as quais esbarramos, tudo é pista para construirmos um quadro maior que se identifica com a perspectiva de cada um. A cidade é vista e é imaginada, relembrada, reconstruída, descoberta.

Voltar com os fragmentos colhidos, compartilhá-los com os outros, provocar tensões entre esses fragmentos é, como no caso do náufrago, a tentativa de encontrar um escombro no qual se apoiar, é resistir dentro de um redemoinho de informações, emoções, lembranças que formam a Belém de cada um. Cada Belém se encontra. Ela contém as fotos dos avós, as palavras que se tornam imagens no pensamento, a vontade de parar e pensar, o olhar estrangeiro, o sentimento que transporta um passado distante para dentro de um quadro novo e atual.

Após a vivência de um fim de semana de conversas e derivas (físicas e no pensamento) fica a sensação de que há de existir também o momento de parar a deriva por um instante. Identificar o que se viu. Pensar sobre o que se viu. Pensar sobre o que se falou. Tentar encontrar um pouco de Terra Firme (de Umarizal, de Marambaia, de Cidade Velha, de Guamá, de …), onde descansar um pouco o olhar, a audição, o olfato, a cabeça, porque todo o dia esse redemoinho encontra a gente, todo dia a gente pode (e vai) derivar, mas há uma diferença entre estar à deriva e desligado do que passa ao nosso redor, e que muitas vezes se choca com a gente e nos machuca (e a gente se pergunta de onde veio isso? Por que veio?), e estar conectado e tentando ligar os fragmentos, e para que essa atenção exista temos que estar atentos aos outros, náufragos como nós, com cuidado e carinho – estamos todos no mesmo barco ou fora dele.

Trocas de Paisagens

relato por Irene Almeida

O que é uma troca? E se essa troca for de paisagens?  Segundo o dicionário seria uma transferência mútua ou dar algo.

A vivência com Randolpho Lamonier foi exatamente isso: dar, trocar, dividir e compartilhar uma deriva contida em cada um. Suas histórias, suas vivências em seus respectivos bairros. Numa cidade repleta de sentimentos, medos, raivas e paixões. Um universo que deriva além de uma cidade… em sentimentos pessoais e familiares. Uma deriva pelo ser presente em nossas vidas… avós e pais.

É conhecer lugares nos quais não entramos pelo fator medo. Ou talvez  preconceito. É saber que quando nos convidam a entrar, eles cuidam, advertem.  Em uma deriva de troca de conhecimento, aprendizado e por que não dizer de abertura?  Mas surge a dúvida. E se fosse o contrário? Seria feito o mesmo? Alguém iria dizer para ter cuidado? E que esse cuidado seria com os olhares, as atitudes e ações de uma sociedade repleta de preconceito e diferenças. Questões que surgem numa troca, numa observação de atitudes.

Foi um momento de refletir e voltar em muitas derivas. Repensar a vida e ver quantas discussões podem surgir e como isso pode fazer um diferencial numa troca. Cada mapa construído parecia um corpo ligado em vários caminhos, como raízes que estão abaixo da superfície, absorvendo matéria bruta para sobreviver e que se diferem às vezes por serem especiais e ficarem a mostra de forma frondosa em sua plenitude. Sendo longas, elas derivam por vários caminhos do conhecimento humano.


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